Rolê Paulistano

Não lembro quando aconteceu, mas sei que faz tempo. Tampouco sei quais os motivos que me levaram a ser assim. A única coisa que sei é que eu não era deste jeito. Repreendido por muitos (todos) que culpam a minha falta de sentimentos.

Não que eu queira, mas é um instinto que adquiri. O de ser extremamente individualista, indiferente a qualquer um. Sou por excelência egoísta. Amor corrói, destrói, me faz mal. Enquanto minha mente procura fazer a coisa certa e não querer magoar ninguém, meu coração é mais forte e se fecha para qualquer um, faço mal para as pessoas que me amam ou simplesmente fujo. Deixando outros corações feridos pelo caminho.

Não que eu me importe, posso conviver com isso numa boa. Um dia talvez eu mude, eu disse “talvez”.

Foi no fim de semana que eu tinha três eventos para comparecer, a jornada alcoólica começa cedo. Depois de um churrasco com o pessoal da empresa, o estudante de classe média baixa não tem carro, e roda por São Paulo embriagado no transporte público para encontrar seus amigos de classe alta. Esses têm carro.

Bebidas caras, lugares caros, pessoas com quem não me identifico, roupas bonitas que não combinam com boca de fumo, fumaça de maconha e cocaína à vontade. Na região da Vila Madalena era uma despedida de um amigo que vai para o exterior. Como explicar que estou pouco me fodendo? Eu não estava nem aí.

“Cara, o que aconteceu contigo?”

“Nada não.”

“Você mudou muito.”

Ele quase chorando.

Já eu, eu não.

Despedida fria. De novo sem carro, caminhada é pela cracolândia para encontrar os amigos mais próximos. Whisky, vinho e violão misturado com a neblina de crack e luzes de isqueiros acendendo os cachimbos. Sinto-me tão à vontade entre os decadentes.

É incrível minha habilidade em esquecer o que faço de mal para as pessoas, guardando apenas o que me convém. Às vezes minha frieza me assusta, às vezes me orgulho dela. Não sei se é medo de amar. Talvez seja. Entre me machucar e ser machucado, eu prefiro a primeira opção, prefiro esta autodestruição. Uma dor anula a outra. Talvez nem eu me ame.

4 comentários:

Leonardo Xavier disse...

A vida vai dando umas porradas e as pessoas sempre preferem fugir da dor. O problema é quando isso faz a gente deixar de viver.

vero:) disse...

A total falta de sentimentos me parece ser a melhor defesa.

Nanda disse...

Frieza talvez seja a solução mesmo, mas algumas horas a gente sente falta de expressar alguma emoção .. Bom, não sei se lembra de mim, mas eu tinha um blog há um tempo atrás e acabo de lembrar dos seus belos textos e vim revê-los e, como sempre, me identifiquei muito. Bom dia! rs

Nath disse...

É dificil acreditar que não temos sentimentos,quando na verdade apenas não os exprimimos ocmo as outras pessoas.Cada um tem seu modo de se expressar , e talvez isso seja mal interpretado ):

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